A Rainha das Lâminas - Capítulo - 1 - Sonhos Encarcerados.

Ver o tópico anterior Ver o tópico seguinte Ir em baixo

A Rainha das Lâminas - Capítulo - 1 - Sonhos Encarcerados.

Mensagem por Tulyan em Dom Fev 22 2015, 18:46

0%


Debruçada numa mesa cheia de papéis rabiscados eu abri os olhos, estava com a bochecha marcada pelo arame em espiral de um pequeno caderno vermelho que me serviu de travesseiro, a janela grande e alta a minha frente estava fechada, mas os raios da manhã me ofuscavam, ajeitei meu cabelo atrás das orelhas e suspirando cocei os olhos.

- Eva! Está acordada? – alguém batia na porta atrás de mim, me virei na cadeira giratória branca dando passos cansados.
     Abri a porta devagar e olhei por ela e vi minha mãe Lyra usando um vestido negro e seus cabelos vermelhos caídos por ambos os lados dos ombros, com uma olhada rápida ela analisou meu quarto mesmo que não tivesse entrado.

- Amm... Mãe... Eu vou me trocar, acabei de acordar. – desescorei-me da porta suavemente enquanto ela entrava e sentia seu perfume vir com ela. – Por que não mandou a Ana? – disse eu enquanto abria meu armário cheio de vestidos longos e curtos.

- Eu quis vir hoje, além do mais eu adoro passar um tempo com você filha. – mamãe se sentou na beirada da minha cama que estava banhada de Sol.

     Com um vestido azul debaixo do braço e um par de saltos brancos pendurados entre os dedos, eu fui até o vestuário onde tirei o pijama branco com bolinhas vermelhas que usava, lá dentro um grande espelho ia por toda a parede, uma janela adornada circular a direita estava iluminando tudo onde a luz passava, fechei a porta que deslizava num trilho de metal no chão. Minutos depois voltei, minha mãe tinha uma cara de tédio e quando me viu voltou a sorrir.

- Você deve pentear os cabelos menina. – falou ela se levantando e mostrando um pente como se fosse uma espada.

- Eu não sou mais uma menina mãe, já tenho vinte anos, mas ainda adoro quando você penteia meu cabelo. – falei puxando a cadeira até mim e me sentando, ouvi seus passos soando atrás de mim até ela por a mão em minha testa e deixando o pente a frente começou a pentear meu cabelo.

     Escorei-me ao máximo deixando que os movimentos suaves me entorpecessem, minha mãe falava algo comigo, mesmo que tentasse não a ouvia direito de tanto sono, mas algumas simples palavras me acordaram como um choque.

- O quê? Me casar? – quase cai da cadeira quando me levantei. – Como? Com quem?

- Calma filha, seu pai vai te explicar melhor no almoço ta bom, por enquanto vamos relaxar. – com um olhar calmo ela saiu do meu quarto enquanto eu ficava parada frustrada e encantada.

     Quando tive coragem de sair Ana falava com Lyra de forma misteriosa, o corredor a frente era cheio de janelas altas de topos arredondados que  estavam claros com o Sol de verão, mas o corredor a direita só tinha luz á tarde então era escuro e pavoroso, comecei a andar por ele com passos largos e rápidos que produziam um som alto e rítmico como um Shishi Odoshi, Ana, nossa empregada e minha antiga babá estava com seus usual vestido negro com avental branco decorado com bordas aveludadas e falava com minha mãe de forma suave gentil.

- Bom dia senhorita Eva, o café da manhã foi servido há algumas horas, mas creio que posso fazer algo para a senhora. – se ofereceu Ana, mas eu recusei.

- Obrigada, mas sabe que eu não sou fã de cafés da manhã. – eu a abracei como sempre faço. – Eu sei que não é seu dever, mas você sabe algo sobre... Er... Aquilo?

     Ela fez uma breve cara de incerteza, sorriu mostrando suas covinhas no rosto fino e claro onde os olhos castanhos brilhavam por seu cabelo negro.

- Eu não sei muito, nem sei se devo falar isso, só espero que siga seu coração. – ela tocou meu peito gentilmente e se afastou descendo a escada mais a frente com as mãos para trás com seus dedos entrelaçados.

- Eu disse que vamos discutir isso no almoço Evandra, não dificulte mais, você é craque nisso. – disse Lyra revirando os olhos e seguindo a empregada só que mais rápida.

     Eu fiquei parada olhando pela janela as árvores altas do jardim, as castanheiras começavam a deixar os frutos caírem pelas trilhas de pedra muito bem cuidados, as flores de minha mãe começavam a florescer, as roseiras estavam rodeando o grande carvalho velho que ainda se mantinha imponente á séculos.

     Era quase meio dia quando um sino tocou longe, vinha da torre da igreja que podia ver ao longe, um cheiro de carne cozida pairava pela escada e resolvi desce-la, ela levava a uma salão grande com uma mesa enorme cheia de alimentos variados, luminárias de cristal estavam dependuradas no teto onde a mesa começava e terminava. Quatro janelas enormes iluminavam a sala de jantar onde várias empregadas traziam pratos de alimentos em total formalidade.

- Eva? Venha aqui filha, sente-se. – meu pai Adolf estava acenando para mim e com a outra mão mexia no bigode com ponta modelada em forma de espiral que sempre me lembra um chifre de touro. - Eu estou preocupada com você, já sabe daquilo?

- Eu não entendo nada, quero uma explicação rápida. – eu me sentei numa cadeira de escoro alto todo acolchoado com linho vermelho e cruzei as pernas seriamente.

- A Família Blackwood  domina todo o setor comercial do Oeste e por isso temos uma longa rixa que se estende de várias gerações, você sabe, mas faz alguns dias que me trouxeram uma proposta de trégua, se caso você. – ele tentou pegar minha mão, mas eu a afastei. – Caso haja uma união entre nós, poderíamos fazer uma aliança extremamente vantajosa para todos.

- Menos para mim não é? – retruquei nervosa. – Já passou pela sua cabeça que talvez eu não queira? Não ache que é ignorância pai, mas eu tenho uma vida que eu quero viver da forma que escolher não que vocês escolham. – me levantei arrastando a cadeira para trás.
    Não era de meu caráter ser uma menininha obediente, claro que eu me mantinha na linha, mas isso foi longe demais.

- Eva, por favor, ouça seu pai, ele não faria isso se não fosse para o bem de todos. – minha mãe tentou me reconfortar com suas palavras doces. – Eu não a culpo por estar nervosa, mas eles são pessoas boas, você terá uma vida boa e cheia de felicidade, eu mesma tive que fazer esse sacrifício, você acha que eu amava seu pai quando nos casamos? Eu o odiava. – ela o abraçou. – Mas hoje eu morreria por ele. – eles se beijaram por um instante.

- Eu preciso pensar ta bom, pensar sempre me faz bem. – eu peguei um grande prato cheio de carnes e o levei para cima, onde gostava de admirar a vista esplêndida.

     E lá fiquei pro algumas horas, minha mente estava um caos com tudo aquilo em tão pouco tempo, tive uma vontade de fugir, sair por ai vivendo minha vida da maneira que bem escolher, o céu estava sem nuvem alguma e ainda trazia ventos suaves e gelados do litoral que balançavam meus cabelos, logo me cansei daquilo e com um suspiro resolvi descer até o jardim e talvez me acalmar, como sou ingênua.

     Desci até o salão principal que usávamos para festas e comemorações que estava com um tumulto estranho, havia muitas pessoas que nunca tinha visto e ao longe minha mãe acompanhava meu pai que a apresentava para os visitantes, minha chegada foi como um trovão que congela o corpo, estavam todos me olhando com seus trajes luxuosos e murmúrios, me congelei segurando o corrimão de cedro branco por um instante que me pareceu uma eternidade, eles começaram a falar algo sobre mim enquanto criei coragem para passar entre eles, todos se afastavam em respeito, cheguei as portas grandes de madeira que estavam abertas e sai depressa sem olhar para ninguém. Quando me senti segura o suficiente fui diretamente a forja subterrânea do castelo, passei pelas flores da mamãe que estava muito bem alinhadas e cuidadas, na base de uma das torres do castelo havia uma porta de madeira desnecessariamente reforçada com aço, bati na porta três vezes, com intervalos de três segundos como havia combinado com quem a abriria.

- Evandra? O Que faz aqui? – um velho baixinho de barba longa e cinza veio a mim, estava com óculos negros dependurados no pescoço por cordames negros, sua roupa de couro leve estava suja de carvão, mas minha vontade de abraça-lo era maior. – Algo errado filha? – ele retribuiu o abraço e pude escutar seus batimentos cardíacos.

- Eu... Eu não sei o que fazer Tio Minus, eu não sei. – ele se afastou por um instante para fechar a porta, com esforço ele desceu duas grandes barras de ferro fundido transversais que trancaram tudo.

     Segurando minha mão ele levou-me até uma média mesa redonda com três cadeiras dispersas onde me sentei, ali era um lugar aconchegante, uma lareira crepitava numa parede e em ambos os lados uma estante guardava vários livros que variavam de metalurgia há técnicas de combate. Várias pequenas janelas se posicionavam no alto onde por suas barras o ar circulava, nenhuma janela significante estava à vista, acho eu que ele preferia assim.

- Eu soube filha, pode parecer ruim, mas pense a longo prazo. – ele pôs a mão sobre a minha e olhou-me nos olhos. – Este velho ferreiro não quer te ver triste. – quando ameacei baixar a cabeça ele pôs a mão em meu queixo e o ergueu.

- Mas, me casar, com quem eu não amo. – eu suspirei pesadamente enquanto a luz da lareira junto a lampiões iluminava meu rosto. – Não me dar escolha alguma, é injusto.

- Injusto? Eva, meu filho foi mandado a guerra contra a minha vontade e eu... Eu nunca mais vou vê-lo de novo. Isso é injusto. – Minus se sentou a minha frente tirando o cabelo branco da testa suada. – Esta é apenas uma fase filha, uma fase que vai superar, eu sei que é difícil e confuso, mas a vida é assim, confie no barbudinho aqui.

- Há Tio Minus, você é uma figura. – o velho sorriu mostrando a presa de ouro, escutei algo ranger no fundo aparentemente era algo metálico. – No que está trabalhando?

     Com um espanto ele pareceu se lembrar de algo urgente e correu para uma sala mais adentro. Lá uma forja estava no centro do salão de teto abobadado onde um buraco circular no topo permitia a passagem da fumaça, sua forja tinha uma fornalha em forma de gota onde um fogo azul queimava a frio, sua bigorna era um pouco maior que o convencional e era feita de um minério azulado entre uma rocha lisa de negra chamada mithril e sobre ela um martelo branco e dourado estava a descansar.

- O que é? – Minus mexeu numa barra incandescente com um tenaz negro de cabo longo.

     Ele ficou calado por alguns minutos enquanto buscava em suas prateleiras nas paredes circulares e negras um tipo de sal que jogou sobre o metal causando um ruído molhado e agonizante, e com um gesto o devolveu as chamas azuis.

- É uma espada das quatro que estou a fazer para Coronéis Templários, nada demais, sabe faz alguns dias que fiz o meu maior trabalho. – ele abruptamente calou-se como se tivesse falado demais.

- O que foi? – me aproximei observando seu olhar confuso. – Algum problema?

- Nenhum querida, apenas lembrei-me que tenho que terminar isso logo. – seu tom estava trêmulo como se estivesse com frio. – Acho que estou velho demais para isso tudo huhum...

    Ele sorria simpático enquanto guardava o pote ao qual retirava o sal estranho.

- Já vou indo então, muito obrigado por me ter feito companhia. – eu o abracei forte mesmo que tivesse que me curvar um pouco para isso.

     Gentilmente ele fez questão de me acompanhar até a porta, mas antes de abri-la.

- Eva! Espere. – Minus começou a vasculhar os bolsos a procura de algo. – Um minuto. – ele falou levantando o indicador.

     Indo ao lado da fogueira ele procurava algo entre os livros velhos e em um deles havia um compartimento entalhado dentro das folhas onde ocultava um objeto que ele tomou em mãos, era um colar branco belíssimo em forma de estrela de quarto pontas e em seu centro um diamante estava encrustado. Minus andou até mim com um sorriso no rosto.

- Meu maior tesouro para a pessoa aquela que é a mais importante. – ele o estendeu a mim.

- Eu... Eu não sei o que dizer, muito obrigado Tio Minus. – nos abraçamos forte novamente e logo tratei de colocar o colar que desce até o coração, gelado e sutil.

     Dei-lhe um beijo na bochecha direita que ficou rosada em meio aos olhos azuis, o ajudei a levantar as pesadas barras e assim pude ver o Sol novamente. Meus olhos estavam cerrados e mesmo assim me despedi.

- Muito obrigado Minus. – ele acenou um  ‘’de nada’’ para mim. Comecei a andar pelo jardim, as folhas das árvores começavam a cair pelas estradinhas e pela primeira vez hoje me senti em paz.

- Eva!? – um homem alto falou atrás de mim do nada me dando um tremendo susto, me virei depressa e o contemplei pela primeira vez, ele vestia um traje fino de seda branca, botas de couro que iam até os joelhos, luvas brancas nas mãos estavam adornadas por cetim dourado.

- Sou sim! – exclamei. – E quem é Você? – perguntei firmemente enquanto via seus olhos verdes como a grama mostrarem surpresa. Minha mente martelava a mesma frase freneticamente: não seja marido, não seja marido!

- Sou Evam Blackwood. – ele se curvou graciosamente. – Seu futuro esposo.

     Essa palavra ecoou em minha mente como ondam num lago agitado, cerrei os dentes tão forte que rangeram.

- Como pode saber se ainda não disse o Sim? – confrontei-o.

- Não quero que me veja como um inimigo, estou na mesma situação que você, só quero que isso seja o menos doloroso possível. – notei uma falha em sua voz, ele engoliu seco nervosamente. – Você está bem? – disse preocupado.

- Estou sim. – rebati uma folha amarela que pairava sobre mim. – Só preciso de tempo pra pensar, só tempo.

- Mas o casamento é em três dias Eva. – disse inutilmente enquanto eu passava por ele depressa. – Aonde vai?

     Ignorei sua pergunta e comecei a andar rápido, mesmo com o salto que usava, as fileiras de árvores faziam uma sombra viva que acompanhava os galhos movendo-se com o vento, encontrei a estrada principal de granito que ia dos portões de aço até as escadas longas de mármore e delas as duas portas enormes de casa. Estátuas e fontes decoradas pontuavam-se em sincronia dando uma beleza fria a tudo. A mesma multidão estava na escada e mais próximo, ao redor da grande fonte que dividia o caminho estava várias carruagens brancas e vermelhas muito caras por sinal.

- Eva! Conheceu-o? – minha mãe alertou a todos que me aproximava, enquanto descia as escadas segurando o vestido negro para não tropeçar. – Filha? – eu passei por ela acenando com a cabeça que sim. E? – perguntou curiosa.

- Não mudou nada, acho até que piorou. – subi as escadas ouvindo os murmúrios dos populares ao meu redor, eu estava nervosa demais para conversar.

     Subi as escadas longas já dentro do salão de festas que me levaram ao corredor a frente e a direita onde várias portas de madeira se mostravam escurecidas por não ter a luz do Sol mesmo com as grandes janelas a frente, o tapete vermelho no chão parecia sangue e somente os vários jarros com plantas de Lyra davam alegria ao lugar, me sentei no batente da janela mais próxima olhando o horizonte antes azul e límpido se tornar cinza e morto, tive uma insana vontade de pular dali mesmo só para ter algo que controlasse por um instante, impaciente com qualquer coisa me retirei para o meu quarto onde saltei na cama e senti uma dor no peito causado pelo amuleto do tio Minus, eu o olhava complacente o presente que brilhava a mais suave luz, e sem mesmo notar... Dormi.


Última edição por Tulyan em Qui Maio 21 2015, 16:46, editado 6 vez(es)

__________________________
O Imortal dá mais valor ao tempo do que o mortal, o mortal se preocupa com o tempo que passa até sua morte
e o Imortal, se preocupa com o tempo que passará,
Sendo Feliz...


Mas nada está ábdito de minhas garras... Nada...
avatar
Tulyan

Mensagens : 2234
Data de inscrição : 14/07/2014
Localização : Atrás de você...

Ver perfil do usuário

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: A Rainha das Lâminas - Capítulo - 1 - Sonhos Encarcerados.

Mensagem por OtakuCraft em Seg Fev 23 2015, 13:58

Eva, eu sei como se sente. :v (Não na mesma situação, claro)

Agora só falta o noivo morrer e culparem a noiva. ¬¬ ... eu não devia ter falado isso. '-'

Mas cara, ta bom pro início, quero ver como irá prosseguir. ^^

__________________________






Meu DA... passa lá. ;-;
avatar
OtakuCraft

Mensagens : 3449
Data de inscrição : 24/04/2014
Idade : 18
Localização : Tartarus

Ver perfil do usuário

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: A Rainha das Lâminas - Capítulo - 1 - Sonhos Encarcerados.

Mensagem por Tulyan em Seg Fev 23 2015, 15:39

Hihiihihihi ainda bem q gostou, eu achei q tava ''meloso'' demais D:, bem altas tretas estão no destino dela ( por q eu to no cap 3 já XD ) E vcs vão gostar... eu acho...

__________________________
O Imortal dá mais valor ao tempo do que o mortal, o mortal se preocupa com o tempo que passa até sua morte
e o Imortal, se preocupa com o tempo que passará,
Sendo Feliz...


Mas nada está ábdito de minhas garras... Nada...
avatar
Tulyan

Mensagens : 2234
Data de inscrição : 14/07/2014
Localização : Atrás de você...

Ver perfil do usuário

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: A Rainha das Lâminas - Capítulo - 1 - Sonhos Encarcerados.

Mensagem por Conteúdo patrocinado


Conteúdo patrocinado


Voltar ao Topo Ir em baixo

Ver o tópico anterior Ver o tópico seguinte Voltar ao Topo

- Tópicos similares

 
Permissão deste fórum:
Você não pode responder aos tópicos neste fórum